Paraíso Terreal

Curada por

MIguel Chaia

Data

28.3 - 30.5.26

PARAÍSO TERREAL  

​​​​nas pinturas de Manoel Canada                           ​​

 

Estas pinturas à óleo que Manoel Canada apresenta na Galeria Pórtico buscam dar expressão ao Paraíso Terreal como encontrado agora nos dias atuais. Esta imagem do paraíso na Terra teve início com a colonização espanhola e portuguesa do Novo Mundo, narrativa religiosa que se propagou a partir dos Diários da Descoberta de Cristóvão Colombo (1492) e da A Carta de Pero Vaz de Caminha (1500).

. Alguns trechos dos Diários de Colombo constituem referências para melhor olhar as pinturas de Canada: “Ao desembarcar viram árvores muito verdes, muitas águas e frutas de várias espécies”; “...e foi deslumbrante ver o arvoredo, o frescor das folhagens, a água cristalina, as aves e a amenidade do clima. Vontade tenho de não mais sair daqui”. “Aqui nesta ilha… também nasce o ouro que trazem pendurado no nariz”.

. Esta imagem de uma natureza exuberante, celestial e surpreendente se propaga pela Europa atiçando a cobiça colonizadora que dá início à ocupação das matas e florestas e, simultaneamente, avança a catequese e violência contra os povos originários. Assim, cerca de 500 anos depois, Manoel Canada faz um balanço visual, por meio de virtuosas pinturas, da atual situação do Paraíso Terreal tomando como linha conceitual o confronto e a complementação entre Natureza e Cultura. ... Onde chegamos?

. Essas pinturas com muitos tons de verde possuem dimensões que ousam reproduzir a imensidão do Novo Mundo e trazem vestígios urbanos, tecnológicos e artísticos alheios à natureza até então intocada. E, fundamentalmente, essas obras de Canada elegem arquitetura moderna como fator determinante para pensar e produzir as visualidades das relações entre cultura e natureza que transformaram profundamente o paraíso na terra que, agora, se encontra no limiar da sua destruição.

. A arquiteta italiana Lina Bo Bardi ao projetar o edifício do Museu de Arte de São Paulo criou um instigante vão central – a imensidão de um espaço vazio – que é apropriado por Canada como palco para representação dos encontros entre natureza e cultura. Por uma coincidência afortunada o cenário oposto à edificação do MASP é um pedaço da mata atlântica original e guardada no Parque Trianon. Na Avenida Paulista, de um lado um museu da cultura, de outro um museu botânico e entre eles o artista inclui acontecimentos ou coisas que simbolizam os atuais significados, do agora, paraíso perdido (ou ocupado) pelas ações colonizadoras. Nesta significativa quadra da Avenida Paulista, onde Canada mergulha para produzir estranhamentos, a natureza é determinada por aspectos urbanos, pois o  Parque Trianon também é cultura.

. Em um único trabalho sobre papel, Canada inclui o indício dos habitantes deste outro mundo, na recuperação de Siríaco, a partir da pintura de Manoel Joaquim da Rocha, 1786, gerando um fascinante paradoxo próprio do vitiligo: o poder da própria natureza para pintar e desenhar no corpo humano. Um Caliban, personagem de A Tempestade, de William Shakespeare, como símbolo da resistência da natureza, mesmo na presença da cultura.

. Assim, duas pinturas se colocam frente a frente, registrando um desafio. O escravizado e o senhor. Uma com Siríaco, o escravizado, e outra com um homem férreo e poderoso, presente em uma escultura do britânico Antony Gormley, reproduzida no Centro de uma metrópole, espaço onde não há mais lugar para a natureza. Apenas a árida cidade.

. Outras telas contaminam a paisagem com representações de um canhão da época colonial abandonado antes da travessia de um rio; da escultura Fauno de Victor Brecheret; dos cavaletes de Lina Bo Bardi; ou com uma enorme oca indígena fora do seu lugar; e, também, com uma igreja catequizadora dominando a paisagem natural. Estranhamentos pictóricos.

. Manoel Canada é um artista que atravessa fronteiras. Nesta exposição, suas obras mostram as ideias e as mãos do artista criador, do exímio restaurador e do professor e pesquisador do tema América Latina; são obras que mostram a capacidade de transitar entre pintura, desenho e fotografia; trabalhos que permitem compreender as tensões e aproximações entre o urbano, o cultural e a paisagem natural – um precioso gênero da história da arte, retomado por Canada para refletir sobre os impactos da civilização sobre a natureza.

. E, um pintor que transita pelos infindáveis tons da cor verde. Os muitos verdes, como descrito por Cristóvão Colombo.

Abril 2026.

Miguel Chaia

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