
Lucimélia Romão - O rosa em vermelho desce
Curada por
Lorraine Mendes
Data
06.06 - 25.07.26
Há um item muito comum à maioria, se não todos, os lares brasileiros. Pertencente à nossa cultura, aprendemos com nossas avós, sobre sua importância e, assim, esse item passa a ser um signo de ancestralidade, herança, família. “Usa colher de pau para não riscar o fundo da panela”, me dizia minha mãe que tinha sua colher favorita, lembro-me bem. No fundo da gaveta encontro o objeto de madeira clara, esculpido pelo uso, que hoje me faz lembrar da relação de amor, cuidado e afeto que tive com aquela que me nutriu de modos de enxergar o mundo.
Ao me encontrar com Lucimélia Romão, nossos olhares se entrelaçam nessa relação entre memória, amor, e uma construção poética de significados para as coisas difíceis de serem ditas: a arte nos permite fabular e projetar mundos, imagens e significados a partir do objeto corriqueiro: a colher de pau.
Na urdidura dos dias encontra-se com o estranho familiar, percebe a colher para além do seu uso cotidiano e reconhece signos e caminhos a serem feitos por tinta, linha, entalhe e presença. Na série de trabalhos construídos com Maria Lucia de Souza, sua mãe, Lucimélia nos apresenta através de um repertório de técnicas de gravura e seu encontro com a trama do algodão – seja em papel ou tecido, sua maneira de construir imagens. Percebemos também como seu olhar é emoldurado pela delicadeza do crochê: ali está a relação de mãe e filha, em nutrição e proteção mútuas. Em colo e mãos de mãe, uma filha é de fato, capaz de correr e encantar o mundo. Um mundo nem sempre doce e acolhedor.
O Brasil atravessa, em 2026, um dos cenários mais alarmantes de sua história no que diz respeito à violência contra as mulheres. Apenas no primeiro trimestre do ano, foram registrados 399 feminicídios — o período mais letal já documentado no país, equivalente a quase quatro mulheres assassinadas por dia ou uma morte a cada seis horas. O aumento dos casos acompanha também a escalada da violência não letal: o serviço Ligue 180 registrou crescimento de 45% nos atendimentos, enquanto os dados do SUS apontam que, nos últimos anos, quase 300 mil notificações de violência contra mulheres ocorreram majoritariamente dentro de casa. A dimensão doméstica da violência aparece de forma contundente nas estatísticas: cerca de 64% das agressões acontecem no ambiente familiar e aproximadamente 60% das vítimas de feminicídio são mortas por seus próprios parceiros. Entre as mulheres assassinadas, as mulheres negras seguem sendo as principais vítimas, representando 62,6% dos casos.
Os números atuais revelam não apenas um crise contemporânea, mas também o percurso histórico de uma legislação que demorou décadas para reconhecer a especificidade da violência de gênero no Brasil. Em 1940, com a formulação do Código Penal original, os assassinatos de mulheres eram tratados apenas como homicídios comuns, sem qualquer consideração sobre o contexto de discriminação, violência doméstica ou desigualdade estrutural que atravessava esses crimes. A questão permanecia invisibilizada pela lei.
Foi apenas em 2006, com a criação da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340), que o país passou a estabelecer mecanismos específicos para enfrentar a violência doméstica e familiar contra mulheres. A legislação instituiu medidas protetivas, ampliou os instrumentos de denúncia e endureceu punições para agressores, representando um marco histórico no reconhecimento da violência de gênero como problema estrutural. Ainda assim, os assassinatos de mulheres continuavam juridicamente enquadrados como homicídio.
Em 2015, a Lei nº 13.104 tipificou o feminicídio como qualificadora do crime de homicídio, reconhecendo oficialmente que mulheres eram assassinadas em razão de sua condição de gênero — seja em contextos de violência doméstica e familiar, seja por menosprezo ou discriminação à condição de mulher. O feminicídio passou então a integrar o rol de crimes hediondos, marcando uma mudança decisiva no entendimento jurídico e social dessas mortes.
Mais recentemente, em 2024, a aprovação da Lei nº 14.994 transformou o feminicídio em crime autônomo, deixando de ser apenas uma qualificadora do homicídio. A nova legislação estabeleceu penas de 20 a 40 anos de reclusão e ampliou o rigor das punições para outros crimes cometidos contra mulheres. A alteração buscou responder ao crescimento persistente da violência de gênero no país, mas os dados de 2025 e 2026 demonstram que, apesar dos avanços legislativos, o Brasil ainda enfrenta índices devastadores de violência letal contra mulheres, especialmente no espaço doméstico e contra mulheres negras.
Os parágrafos acima me soam um pouco estranhos aos textos que costumeiramente escrevo ou leio como textos críticos de exposição, mas familiar é seu conteúdo. Tão familiar, que se corre o risco de naturalizar a violência como responsabilidade de quem dela é vítima: mulheres aprendem sobre como se comportar, se vestir e onde não ir para minimizar riscos e potenciais danos. Mas o que fazer quando o lugar de acolhimento, cuidado e segurança se torna também o lugar em que a violência faz morada?
Na instalação Quando a noite cai, de 2025, Lucimélia Romão nos convida a olhar atentamente para as paredes, estruturas e interior de uma casa, a ouvir sons que sobrepostos à nossa própria consciência, revelam o que algo que parece bonito, quase um sonho, mas esconde dimensões de risco e um eminente perigo.
A repetição da presença de colheres, na instalação Para estancar o sangue ganha neste espaço uma nova configuração: ao trabalhar com a madeira materializada em colheres de diversas diferentes tonalidades e tamanhos e derramá-las diretamente na montagem, Lucimélia confere ao material uma certa fluidez que ocupa o espaço e nos faz perceber um ritmo que se reconfigura da mesma forma que as relações são dinâmicas: há sempre sangue a ser estancado.
O trabalho de Lucimélia Romão atravessa técnicas, costura o tempo e abre caminhos. Constitui uma gramática visual um novo signo: a colher, que atribui a ele, em relação aos relatos e dados de violência doméstica no país, um significado forte, delicado, poético, mas incômodo.
Lorraine Mendes — Junho de 2026


