
Epitélio - Peter de Brito
Curada por
Claudinei Roberto da Silva
Data
A partir de 28 de fevereiro
A exposição “Epitélio” do artista Peter de Brito inaugura a série de mostras que a Galeria Pórtico realizará ao longo de 2026. A iniciativa é coerente com o projeto do espaço que se anuncia como resultado da ação de pessoas que “vivem além do verniz”, construindo conhecimento e estabelecendo relações a partir da contribuição interseccional dos vários agentes do circuito da arte alí reunidos, incluindo, o que é importante, pesquisadores e educadores.
Peter de Brito é um artista versátil, que nas suas cogitações não dispensa a ironia fina o que resulta em trabalhos de alta voltagem poética e de rara gravidade política. Na estratégia-técnica adotada nas pinturas da série Mimese-Eugenia exibidas nessa exposição, a escolha do suporte (lona preta) e a intervenção realizada sobre ele (com água sanitária) são determinantes ao desenvolvimento das narrativas que emergem a partir dessa ação.
O epistemicídio tenta tornar subalternas e desimportantes questões que entre nós, no Sul global, estão, há séculos, à flor da pele da história. Nossa derme social, corrompida e machucada por séculos de ordem colonial, têm, contudo, a capacidade de regenerar-se, de cicatrizar-se. As cicatrizes que compõem a história desse corpo social são, portanto, sua memória latente.
É comum que a superfície da pele cicatrizada adquira um matiz diferente da original, tornando-se mais escura ou mais clara, conforme a natureza do ferimento e do consequente processo de regeneração do tecido.
Os indivíduos, a depender da sua disposição de espirito e condição de classe, arranjam artifícios cosméticos ou cirúrgicos para mitigar e mesmo extinguir essas marcas; mas o tecido social esgarçado não se remenda artificialmente.
Ao diluir com alvejante a cor preta original da lona onde realiza o seu trabalho, Peter obtém vários tons de ocre e sépia para compor o tom da pele dos personagens que retrata. Através dessa operação Brito investiga a sua/nossa identidade e igualmente, e expõe, sutilmente, os mecanismos racistas que operam de múltiplas formas no interior da nossa sociedade.
Se aos artistas que, como Brito, pertencem as maiorias minoradas, a circulação de suas obras continua problemática, a denúncia do racismo que coopera para a manutenção dessa ordem se impõe, contudo, um arranjo estético-ético escassamente elaborado pode, e tem, em muitos casos, comprometido o alcance e a efetividade dessas mensagens.
Daí decorre também a importância dessa mostra já que, organizando memórias particulares e coletivas, investigando seu corpo, inclusive através gêneros historicizados, como o retrato e autorretrato, Peter de Brito, funda um discurso de muita espessura poética e o faz com recursos materiais mínimos, que confirma uma acurada construção conceitual.
Aliás, a suposta singeleza dos seus procedimentos confirma o fato de que: a síntese e a simplicidade só se alcançam através de experiência e sensibilidade acumuladas no fazer contínuo e disciplinado. Assinala, ainda, a desenvolta habilidade do artista na manipulação das linguagens do desenho e da pintura, especialmente quando empregada na produção mimética das suas figuras, na criação do espaço virtual e nas atmosferas intensas que essas obras acabam por transmitir.